Minha carta de demissão

Oi todos,

penso a maioria de vocês já devem saber do meu desligamento do PID. Hoje é meu último dia de trabalho aqui e preciso dizer algumas coisas.

Comecei minhas atividades neste projeto em agosto de 2004, quando ainda era o momento de experimentação das tecnologias que seriam utilizadas nos Infocentros. Foi uma etapa desafiadora, pois ao optar pelo software livre como solução de software para o PID, estávamos tentando fazer algo novo, que demandaria bastante criatividade e habilidade técnica.

Inúmeras reuniões foram realizadas, soluções externas foram propostas,
experimentadas, até concluirmos que a inovação deveria partir do PID, afinal
devíamos fazer jus ao nome da Secretaria que nos abriga. O que posso dizer agora é que conseguimos implementar uma solução consistente, segura e sustentável. Percebemos que ao nos deparar com o montante de 100 entidades para implantar e manter seria necessário abdicar de algumas funcionalidades inicialmente propostas. Soubemos lidar com isso muito bem, e sabemos hoje que pouco a pouco nossa solução vem agregando novas características, de maneira responsável, sempre passando por um ambiente de testes, o que vem caracterizando o bom funcionamento dos sistemas.

Fiz questão de implantar um ambiente de desenvolvimento aberto no PID. Dessa
maneira cooperamos com outros projetos e recebemos críticas e melhorias
externas, fato que é o cerne do modelo de desenvolvimento de softwares livres.
Nossos softwares estão licenciados sob GPL, uma licença com respaldo jurídico,
que garante a liberdade de que os fontes estarão disponíveis para qualquer fim,
e que ninguém, além do próprio detentor do copyright (SECTI) terá o direito de
tornar proprietário o que foi realizado colaborativamente.

Nossa solução é referência no Brasil. Durante eventos e visitas de pessoas
renomadas no assunto, recebemos muitos elogios, o que obviamente nos envaidece e nos traz mais estímulo pra continuar. Diversos projetos comunitários, geralmente voluntários de outros estados, estão interessados em utilizar algumas características da nossa solução. Usualmente são pessoas que tocam pequenos projeto de inclusão digital na sua cidade e não têm contam com recursos para desenvolver sistemas com a complexidade que desenvolvemos no PID. Essas pessoas também se beneficiam e isso pessoalmente me deixa muito satisfeito.

De fato ainda temos muito o que melhorar. O Berimbau Infocentros está na sua
versão 1.1.0, com diversas necessidades de melhoria, que serão realizadas pela
equipe de desenvolvimento com o passar do tempo, principalmente pelas novas
necessidades que irão aparecer. Deixo uma documentação do trabalho que realizei aqui, para que os novos colaboradores possam dar plena continuidade ao trabalho desenvolvido até então.

Bom, todos que me conhecem um pouco sabem que tenho dificuldades em me calar diante do que não concordo, mesmo em momentos em que a conveniência do silêncio é mais adequada. E não pode ser diferente nesta última mensagem. Quero registrar algumas críticas e sugestões, que ao meu ver pode tornar o projeto melhor.

Trabalhar para o estado é um grande desafio, pois sabemos que os objetivos de
algumas autarquias não são tão nobres quanto aqueles que idealizamos em serviço. Em alguns momentos o fator quantitativo sobrepõe o qualitativo, por motivos diversos. O que percebi em diversas situações foi a necessidade de se implantar um serviço sem as condições necessárias satisfeitas. Isso além de acarretar grande estresse interno, acaba por nos obrigar a realizar uma tarefa que não terá qualidade, e muito menos o alcance social que deveria ter. Resumindo, percebi que em alguns momentos os números eram mais importantes do que o verdadeiro alcance do projeto.

Posso estar equivocado pois não tive uma participação mais geral no PID, grande parte do tempo estive concentrado no desenvolvimento, mas tenho um sentimento que deve ser elucidado aqui. Sinto falta de um acompanhamento sério nos Infocentros instalados em organizações mais carentes. Um exemplo que cito é o Infocentro Steve Biko. Nas minhas visitas, eles pareceram ter uma postura muito séria no que defendem, e penso que mereciam mais atenção pelo PID. O Steve Biko foi o primeiro Infocentro instalado com a nossa solução, e desde então não foi atualizado. Tecnicamente sofre um abandono. Eles têm outras dificuldades, essencialmente financeiras, que poderiam ser sanadas se houvesse uma integração maior com movimentos da economia solidária e atividades de auto-sustentabilidade. Não seria papel do PID promover essa integração? Vejam que citei o Steve Biko como um exemplo, para que se possa refletir de forma genérica sobre o assunto, e não somente resolver o problema deles.

Temos outro sério problema ao meu ver, que pode ser consequência da minha
primeira crítica: falta de planejamento. Obviamente eu falo pelo setor de
desenvolvimento. Temos poucas reuniões, e em diversas vezes tivemos retrabalho por conta disso. Em diversos momentos tivemos que abdicar de centenas de linha de código pelo simples fato de não sabermos de fato o que queríamos. O retrabalho, num projeto de criação é tolerável, mas ao meu ver a quantidade de retrabalho que temos está um pouco grande, o que atrasa o processo de desenvolvimento e nos faz ter um gasto do escasso recurso público de maneira inadequada.

Sempre procurei me ater somente ao papel que me foi concedido no PID, por isso evitei diversas críticas, que serão feitas publicamente neste momento: considero intolerável a maneira que os operadores de helpdesk são tratados no projeto. Estamos num ambiente em que não vejo motivos para se promover competitividade, autoritarismo e desrespeito. Infelizmente tenho presenciado atitudes assim no PID. Os operadores que passaram pelo PID saíram muito insatisfeitos. Os que ainda estão, e que eu tenho contato, também sentem-se péssimos em ter que lidar com o modelo de trabalho adotado. Pessoas competentes deixaram o PID por conta disso. E asseguro que mais deixarão. O projeto vai continuar perdendo gente boa enquanto os operadores não tiverem o direito de olhar para o lado, ou enquanto forem obrigados a esperar no lado de fora do PID o minuto exato para poderem circular no seu ambiente. Pode-se argumentar em favor da disciplina e produtividade, o que ainda não me convence pelos atos extremos observados ao longo de mais de um ano de trabalho.

As críticas são as mais sinceras, sem envolvimento pessoal, porém algum tom de
indignação em alguns trechos, que podem ser ignorados ou refletidos por quem
conseguiu ler este email até aqui. Só peço que acreditem que não tenho motivo
particular para ataques infundados.

Por fim faço aqui meus agradecimentos a todos vocês pela oportunidade de
trabalharmos juntos neste projeto. Aos meus amigos, que me acompanharam nessa jornada, ao pessoal do PSL-BA, que esteve presente principalmente nos momentos técnicos decisivos para o PID. Aos que passaram por aqui e deixaram um trabalho de grande competência: Yupanqui, Lucas, Aurélio, Tavares, Tássia, Valéssio, Charles e Amadeu. Agradeço também aos projetos que foram grande influência para o nosso, em especial ao pessoal dos Telecentros de SP, Caio, Eduardo. Ao pessoal do Debian, LTSP, GNOME. A Otavio, que é meu mentor no Debian e o coordenador do Debian-BR-CDD, distribuição base para nossa solução.

Desculpem se esqueci alguém, mas é hora de almoço agora e a fome tá apertando🙂

No mais, desejo muito sucesso para o PID e para todos vocês. É hora de terminar minha graduação (que terá meus trabalhos aqui desenvolvidos como objeto de monografia) e voltar a me dedicar à música, que é minha verdadeira paixão.

Meus contatos: 8806-5119 ou tiago@debian-ba.org ou ICQ: 48681164

abraços,


Tiago Bortoletto Vaz
http://tiagovaz.org
0x6CC228A1 – http://pgp.mit.edu

“É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.”

Rondó da Liberdade, Carlos Marighella

One Trackback

  1. […] (Obrigado por Fumar). Algumas em tom de desabafo, chutando mesmo o pau da barraca, como deu-se minha demissão publicada na web em 2005. Outras um pouco desafetuosas, como aquela cobertura de uma palestra que […]

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