A tal bolsa e a renda de existência

Continuo cultivando inimizades por não responder de maneira muito simpática a correntes de email de baixo escalão contra esse ou aquele candidato. A última foi um email imbecil, mal escrito, supostamente assinado pelo jornalista Luiz Nassif. Esse Luiz Nassif com “z”, que nada tem a ver com Luis Nassif que conhecemos (ou ao menos deveríamos). O próprio já desmentiu a autoria, mas como as pessoas não costumam exercitar o velho e saudável ceticismo, continuam espalhando esse tipo de infâmia caixas de email afora.

Tenho até evitado discutir política, embora não deixe as provocações de lado nos microblogs e outros tipos de mídia que estão disponíveis pra quem quiser ler, bem diferente das mensagens de email, que invasivamente tomam tempo e espaço no seu servidor e nos seus equipamentos pessoais. Quando fazem isso em conta institucional eu reajo de maneira ainda mais chata. Se esta instituição é um órgão público no qual remente e destinatários trabalham, pode esperar de mim indisposição e grosseria dobradas.

Morando em São Paulo eu decidi evitar discussões sobre política porque, em escala mais elevada que em outros locais, as pessoas em geral não estão expondo nada além do que suas próprias frustrações pessoais, profissionais, seus medos, complexos e mesquinhezas. De política mesmo restam uma ou outra argumentação, rasa, sem sentido político, frases prontas, enlatadas e mal digeridas, travestidas de opinião forte e bem fundamentada. Pessoalmente ainda não encarei uma situação de xenofobia, mas frequentemente me deparo com frustrações – disfarçadas de argumentos – contra nordestinos, aqueles desinformados que colocaram o analfabeto barbudo pra governar o Brasil. É óbvio que uma pessoa com as qualidades que já citei neste post não poderia deixar de colecionar mais uma virtude: a covardia. Aquela que enche as pessoas de coragem atrás de uma tela de computador ou de um automóvel fechado, com vidro fumê e claro, fora de congestionamento pra não correr o risco de ter que encarar o ofendido face a face.

Preciso registrar que em pleno inferno eleitoral eu consegui encontrar um texto bastante lúcido, daqueles que dá vontade de espalhar pra todos os imbecis que ficam enchendo minha caixa com mensagens insanas. Mas não farei isso, pois seria também deselegante. Talvez seja até perda de tempo, pois complexo e frustração não se resolve com textos lúcidos e sim com um histórico de vida intensa e digna, o que obviamente não tem solução sem uma máquina do tempo. Restam então as drogas (e as discussões políticas).

Deixando a ira de lado, quero parabenizar a Maria Rita Kehl, do jornal Estado de São Paulo, por ter tido a sensibilidade e sobretudo a coragem de registrar num veículo tradicionalmente reacionário palavras tão humanas sobre um tema mal debatido, tanto pelas oposições quanto pelos governistas. O partidarismo deveria ser algo totalmente irrelevante diante do que significa uma renda que permite milhões de famílias finalmente terem o que comer, que possibilite que o país minimize um pouco a sua dívida social, seja esta renda chamada de bolsa família, esmola ou o que você preferir.

O texto, publicado em 2 de outubro de 2010, de título “Dois pesos…” nos brinda com essas lindas observações:

“Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo…”

“Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias.”

“O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições.”

Assim vou acabar copiando o texto todo🙂 Leia você mesmo e reflita: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php

Agora pare, respire e leia o breve parágrafo abaixo, escrito pelo filósofo André Gorz em 2003, que se ainda vivo poderia pensar o bolsa-* como a realização de um antigo e até então utópico desejo seu, acontecendo bem aqui, no Brasil: a renda de existência. Se depois disso você continuar enchendo a caixa dos outros com asneiras sobre este tema, corra e vá procurar um tratamento.

“A reivindicação da garantia incondicional de uma renda deve, sobretudo, significar de imediato que o trabalho dependente não mais é o único modo de criação de riqueza, nem o único tipo de atividade cujo valor social deve ser reconhecido. A garantia de uma renda suficiente deve enfatizar a importância crescente, virtualmente preponderante, dessa outra economia criadora de riquezas intrínsecas, não mensuráveis, nem permutáveis. Ela deve enfatizar a ruptura entre criação de riqueza e criação de valor; e deve também evidenciar que “desemprego” não significa nem inatividade social, nem inutilidade social, mas somente inutilidade para a valorização direta do capital”

[ATUALIZACÃO]: aparentemente a redatora Maria Rita Kehl foi demitida do Estado de São Paulo em virtude do texto mencionado aqui😦

One Comment

  1. Vinicius
    Posted October 7, 2010 at 02:43 | Permalink

    Cara, essa mentalidade de bolsa-família como bolsa vagabundo (que por sinal é fortíssima aqui em São Paulo é uma das coisas que mais me enchem o saco. É exatamente esse espírito capitalista selvagem de que se você se “esforçar” você consegue tudo o que quer, onde “esforçar” é simplesmente um eufemismo para se sujeitar a condições de trabalho escravo e sem perspectiva alguma de ascensão social. As pessoas que dizem isso, na maioria das vezes, são as mesmas que não suportam viverem em um mundo onde precisam dividir o saguão do aeroporto com uma nova classe média. O texto da Maria Rita Kehl tem um título interessante pois se aplica a própria situação que viveu a autora. Alguém circulou essa mensagem hoje no twitter: O Estadão chamam as críticas de censura, mas censura quem crítica. Mais irônico e verdadeiro, impossível.

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